Rede dos Pontos de Cultura da Bahia

Posts Tagueados ‘Cinema e Vídeo

Zabelê FM faz oficina de audivisual e lança blog

com um comentário

Diana, uma das participantes da oficina, em aula prática

Diana, uma das participantes da oficina, em aula prática

No blog do ponto de cultura Zabelê FM você vê como foi a  feira de cultura que  reuniu 10 mil pessoas e dezenas de artistas em  25 horas de apresentações culturais, com a participação de bandas locais, grupos folclóricos, grupos de teatro, poetas, DJs  e artesãos. Confere também a oficina de audiovisual com 27 jovens, que resultará em breve em videodocumentários sobre a cultura local: http://zabelefm.wordpress.com/

Escrito por pontoapontobahia

27 de agosto de 2009 em 10:35

Filme revela consciência sobre direito de imagem

fazer um comentário »

Nego Fugido ganha prêmio de melhor curta brasileiro
por Josias Pires

 O filme Nego Fugido (Claudio Marques e Marília Hughes, Salvador, 2009) levou o prêmio de melhor curta brasileiro do Seminário de Cinema, realizado em Salvador na semana de 27 de julho a 1o. de agosto. Em cena a presença de dois jovens “estrangeiros” (Leonardo França e Paula Carneiro) no espetáculo Nego Fugido, teatro de rua tradicional do povoado de Acupe, no município de Santo Amaro da Purificação. O jovem é um músico, toca acordeon, é branco; a jovem também branca aparece com uma câmera de vídeo registrando a manifestação popular. O jovem é ator; e decide participar da manifestação por dentro, pinta o seu próprio rosto com o carvão e o pinche que são usados para fazer as máscaras dos caçadores e negros fugidos da representação do Recôncavo da Bahia.

Montagem ágil, clipada, câmera nervosa, o filme capta a força colorida e lúdica do Nego Fugido e nos comove. O ator realça na sua atuação o traço servil do escravo: eles saem às ruas, amarrados, pedindo dinheiro as sinhás para comprar cartas de alforria.

Antes disso, ou seja, da cena com o ator no peditório, o filme problematiza a questão do pagamento sobre direitos de imagem. “Mas Sinhá, fique sabendo que pra filmar aqui tem que ter money, money sinhá!!”, diz um Nego Fugido, armado, olhando para a câmara – ou seja, para nós espectadores. Um olhar arrogante, cheio de auto-estima e revelador de conhecimento que tem dos seus direitos.

Curioso é que a força da exigência para defender o direito de imagem não parece ser o mesmo que se vê na representação do peditório de rua, quando se suplica, humildemente, pelo dinheiro das iaiás.

– Assim não dá, isto tudo para representar este servilismo? Parece nos indicar a representação do ator branco que encena a crítica ao espetáculo do Nego Fugido.

A temática é relevante. Quem milita no campo do espetáculo popular sabe que a introdução do dinheiro para garantir apresentações de grupos tradicionais populares da cultura modifica a relação com a comunidade, com o folguedo (muitos chamam de brinquedo) e entre as pessoas que participam da sua realização. Não são poucos os grupos que deixaram de apresentar-se como um ritual, nas datas e circuitos/lugares tradicionais, passando a vender as apresentações para diversos interessados nos mais diferentes lugares. Contudo, deve-se considerar, no caso do Nego Fugido, que a montagem do espetáculo envolve o dispêndio de muitos recursos da comunidade, formada sobretudo de marisqueiros, pescadores, lavradores e pequenos funcionários.

A outra questão é que, em geral, o espetáculo popular reproduz também aspectos do imaginário do opressor. A busca da liberdade, o fim da escravidão foram processos complexos. Se as elites senhoriais tinham, muitas vezes, desprezo para com os negros, estes valiam-se das mais diferentes estratégias para sobreviver na sociedade escravista; até mesmo obter aliados entre os brancos. Alguns buscavam meios de integração e outros de ruptura. Os que fugiam foram negros que prezavam a liberdade e estavam dispostos a morrer por ela. Ainda que, muitas vezes, negros tenham escravizados outros negros e que o servilismo impedia a tomada de consciência do valor da liberdade. O espetáculo do Nego Fugido, em que pese uma aparência de integração à ordem, na medida em que exalta também a figura da princesa Isabel, na verdade representa uma gama multifacetada de significados.

Quando a TV Educativa da Bahia esteve em Acupe, no final da década de 1990, para fazer gravações para a série Bahia Singular e Plural, a questão do dinheiro, evidentemente, esteve presente e foi colocada de pronto por D. Santa, a madrinha do grupo, a sua representante para assuntos diversos. A TVE colaborou com d. Santa para a compra da indumentária, figurino e adereços do espetáculo. Ela argumentou sobre o volume de despesas para renovar o estoque de espingardas e pólvora, adquirir chapéus e roupas de couro, armas, alpercatas para os soldados, para o rei, para os caçadores, os produtos para as pinturas, as roupas dos meninos que fazem os negros fugidos e os meninos da música – enfim, é uma produção que exige mobilização grande e decidida.

Na época, entendeu-se que foi uma negociação correta, necessária, justa e adequada para a comunidade e para os interesses de registro da emissora.

O filme “Nego Fugido”, de Cláudio Marques e Marília Hughes, busca dar conta deste tipo de relação e acaba por nos revelar um grupo que parece ter adquirido consciência viva sobre direitos de imagens, e faz questão de proclamá-la, situação que contrasta com a representação da época escravista, quando alguns negos fugidos saíam, humilhados, pedindo de casa em casa um dinheirinho para comer e ganhar alguma liberdade.

Veja íntegra do post de Josias Pires sobre o Seminário de Cinema aqui: http://blogln.ning.com/profiles/blogs/salvador-realiza-seminario-de?xgs=1

Escrito por pontoapontobahia

3 de agosto de 2009 em 10:33

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.151 other followers